Senegal deixou de ser surpresa e virou potência africana

Das quartas de 2002 ao duelo contra a Bélgica, Leões de Teranga consolidaram um projeto que transformou a seleção em referência na África

Crédito: (Imagem/Fifa)

Quando o Senegal entrou em campo contra a França na abertura da Copa do Mundo de 2002, poucos imaginavam que aquela seleção estreante seria capaz de derrotar a atual campeã mundial. Menos gente ainda acreditava que os Leões de Teranga chegariam às quartas de final, eliminando a Suécia e ficando a apenas um jogo das semifinais.

Durante muito tempo, porém, aquela campanha foi tratada como uma exceção. Vinte e quatro anos depois, a percepção é completamente diferente. A seleção que enfrenta a Bélgica nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026 é resultado de um projeto que transformou Senegal em uma das maiores forças do futebol africano.

O impacto de 2002

Antes da Copa disputada na Coreia do Sul e no Japão, Senegal possuía pouca tradição em torneios internacionais. A seleção jamais havia participado de um Mundial e tinha apenas algumas aparições na Copa Africana de Nações.

Após vencer a França por 1 a 0 em Seul, Senegal se tornou uma das sensações do torneio. A equipe avançou em um grupo que ainda contava com Dinamarca e Uruguai, eliminou a Suécia nas oitavas e só foi derrotada pela Turquia nas quartas de final graças ao extinto gol de ouro.

Aquele desempenho colocou o país no mapa do futebol mundial e revelou diversos jogadores para o mercado europeu. Mas manter o nível alcançado mostrou-se muito mais difícil.

Os anos de instabilidade

Nos anos seguintes, Senegal enfrentou o mesmo problema vivido por diversas seleções africanas que protagonizaram campanhas marcantes em Copas do Mundo: a dificuldade de transformar uma geração talentosa em um projeto sustentável.

A equipe passou por trocas frequentes de treinadores, ficou fora de várias edições da Copa Africana e não conseguiu retornar ao Mundial de 2006 nem ao de 2010.

A sensação era de que a histórica campanha de 2002 havia sido um ponto fora da curva. Enquanto países como Costa do Marfim, Gana e Camarões assumiam o protagonismo continental, Senegal parecia preso às lembranças de sua maior geração. Foi então que começou a reconstrução.

A era Aliou Cissé

Poucas figuras simbolizam tanto a transformação do futebol senegalês quanto Aliou Cissé. Capitão da equipe que encantou o mundo em 2002, ele assumiu o comando técnico da seleção em 2015 com uma missão ambiciosa: criar uma identidade duradoura para os Leões de Teranga.

Sob sua liderança, Senegal passou a combinar organização tática, estabilidade administrativa e uma geração cada vez mais qualificada de atletas formados em centros de treinamento espalhados pela Europa. Nomes como Sadio Mané, Kalidou Koulibaly, Édouard Mendy e Idrissa Gueye ajudaram a elevar o patamar da equipe e os resultados apareceram rapidamente.

Senegal voltou à Copa do Mundo em 2018, alcançou a final da Copa Africana de 2019 e, três anos depois, conquistou o maior título de sua história ao vencer a Copa Africana de Nações pela primeira vez.

Muito além de uma geração

Senegal - Copa do Mundo - África
(Imagem/Fifa)

Embora a conquista continental tenha sido impulsionada por jogadores que atuavam nos principais campeonatos europeus, o crescimento do futebol senegalês vai além dos nomes mais conhecidos.

Nos últimos anos, o país investiu no desenvolvimento de jovens talentos, fortaleceu suas categorias de base e passou a exportar atletas em quantidade cada vez maior. E parte dessa reconstrução começou longe dos holofotes, mais especificamente em projetos de formação como a Generation Foot que passou a revelar talentos regularmente para o futebol europeu, criando uma base mais sólida para as futuras gerações da seleção.

Mesmo com o envelhecimento ou a saída de figuras históricas, Senegal continua competitivo e capaz de formar equipes fortes em diferentes ciclos. Essa capacidade de renovação é justamente o que diferencia uma seleção emergente de uma potência consolidada.

O confronto contra a Bélgica representa mais um capítulo dessa trajetória. Durante décadas, partidas de mata-mata contra seleções europeias eram vistas como obstáculos quase intransponíveis para equipes africanas. Hoje, Senegal entra em campo sabendo que possui estrutura, experiência e qualidade suficientes para competir em igualdade de condições.

Independentemente do resultado, a presença dos Leões de Teranga entre os melhores da Copa do Mundo não pode mais ser considerada uma novidade. Ela é consequência de um processo iniciado há mais de duas décadas, quando um grupo de estreantes chocou o mundo ao derrotar a França.

  • Publicado: 01/07/2026 15:00
  • Alterado: 01/07/2026 19:02
  • Autor: Vitor Bianco
  • Fonte: ABCdoABC