EUA negam querer acabar com o Pix após tarifaço ao Brasil
Governo Trump afirma reconhecer a importância do sistema para os brasileiros, mas quer que empresas americanas não fiquem em desvantagem na concorrência com pagamentos digitais.
- Publicado: 16/07/2026 09:07
- Alterado: 16/07/2026 09:07
- Autor: Thiago Antunes
- Fonte: FolhaPress
Depois de anunciar o tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros, os Estados Unidos negam que queiram acabar com o Pix, apesar de o sistema de pagamento ter sido um dos pontos das reclamações americanas e de o USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA) tê-lo incluído na investigação da Seção 301.
Governo americano fala em concorrência em igualdade de condições
Um alto funcionário do governo Trump afirmou que os Estados Unidos não querem uma situação em que empresas americanas fiquem em desvantagem enquanto um sistema operado pelo Estado recebe, na visão dos americanos, tratamento diferenciado. Segundo esse funcionário, a expectativa é que todas as empresas concorram nas mesmas condições comerciais, embora ele não tenha detalhado qual seria a solução para esse cenário.
Ainda de acordo com esse representante dos EUA, o governo Trump reconhece a importância do Pix para os brasileiros, mas não quer que empresas americanas sejam obrigadas a divulgar ou usar o sistema. A expectativa americana é que o Pix compita com as empresas dos EUA em bases equivalentes.
Audiências da Seção 301 reuniram defesas do Pix dos dois lados
Durante as audiências da Seção 301, brasileiros e americanos argumentaram a favor do Pix, defendendo o sistema como uma infraestrutura pública que ampliou a concorrência, reduziu custos para consumidores e empresas e criou oportunidades de negócios, inclusive para companhias americanas.
Nas negociações que antecederam a confirmação do tarifaço, autoridades brasileiras já haviam rejeitado qualquer negociação envolvendo o sistema de pagamentos. Em nota divulgada após o anúncio da tarifa, o governo brasileiro voltou a defender a ferramenta: “O Pix é um patrimônio do nosso povo e referência internacional de infraestrutura pública digital. No Brasil, não vamos abdicar de proteger nossas famílias e nossas crianças contra a ganância de um punhado de tecno-oligarcas”.
Pix reúne mais de 170 milhões de usuários cadastrados
Depois de mais de cinco anos de seu lançamento, o Pix se consolidou como o principal meio de pagamento do país. Em 5 de dezembro do ano passado, o sistema bateu recorde ao registrar 313,3 milhões de transações em um único dia. A modalidade já reúne mais de 170 milhões de brasileiros cadastrados, número que supera a população economicamente ativa do país, estimada em cerca de 110 milhões de pessoas. Ao longo do tempo, o sistema ganhou novas funcionalidades, como Pix agendado, Pix por aproximação e Pix automático.
Ataque ao sistema é visto como recado a outros países
Autoridades brasileiras também enxergam o ataque ao Pix como um recado a países que estudam seguir o caminho do Brasil e implementar sistemas de pagamentos instantâneos gratuitos. A fragmentação do sistema financeiro global em soluções regionais e nacionais ameaça a supremacia dos Estados Unidos no setor e representa uma dor de cabeça para Visa e Mastercard, o duopólio americano de pagamentos.
A ascensão de sistemas “soberanos”, especialmente na Europa, uma das principais fontes de negócios internacionais das duas empresas, pode corroer margens operacionais que hoje superam 50%. Em seus relatórios anuais mais recentes, tanto a Visa quanto a Mastercard já mencionaram o tratamento preferencial dado a sistemas domésticos de pagamento, como o Pix, como um risco para os próprios negócios.