Bets: "A aposta tira o nosso dinheiro e o nosso tempo"

Com movimentação de R$ 37 bilhões em 2025 e 25 milhões de usuários, o avanço das bets no Brasil impulsiona debates sobre as publicidades

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Segundo dados do estudo “Análise do Mercado de Bets no Brasil”, realizado pela Tendências Consultoria em parceria com a Peers Consulting+Technology, as empresas de apostas online movimentaram cerca de R$ 37 bilhões no Brasil apenas em 2025. Com esse desempenho, o país se tornou o quinto maior mercado de apostas do mundo.

O crescimento do setor, no entanto, não se reflete apenas no faturamento. De acordo com o levantamento, as plataformas reúnem uma base de mais de 25 milhões de usuários brasileiros. Parte desse alcance está relacionada ao forte investimento das empresas em publicidade.

Mercado ilegal de bets causará prejuízo de R$ 10,8 bi até 2026. bets
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As propagandas de casas de apostas estão presentes nos principais meios de comunicação. Elas aparecem nos intervalos das novelas do horário nobre, no Instagram de influenciadores digitais e, principalmente, em eventos esportivos.

Essa presença ficou ainda mais evidente durante a Copa do Mundo. As casas de apostas estiveram entre as principais patrocinadoras da transmissão do torneio e também firmaram parcerias com jogadores, como Vinicius Júnior, embaixador da Bet Nacional.

Como as bets têm afetado a vida dos brasileiros?

Cerca de 42% dos brasileiros que gastaram dinheiro com apostas esportivas em um mês estavam endividados. O comprometimento da renda atinge quase metade do público consumidor do setor.

Esse impacto levou o governo federal a adotar medidas para restringir o uso dessas plataformas por beneficiários de programas sociais. O Ministério da Fazenda bloqueou o acesso a sites de apostas para 2,8 milhões de beneficiários do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC).

A medida busca proteger recursos destinados à subsistência básica. Segundo a pasta, esse número representa 10,4% das pessoas atendidas pelos dois programas.

O total de bloqueados equivale também a 11,2% dos 25 milhões de brasileiros que tentaram fazer apostas no ano passado. A iniciativa busca evitar que recursos de assistência social sejam utilizados em apostas.

O ator e criador de conteúdo Bruno Helal está entre os brasileiros que acabaram se viciando em apostas online. Formado em Artes Cênicas pela CAL, Bruno já trabalhou na novela Fuzuê, da Globo, e na série Sem Filtro, da Netflix. Ele viu sua vida mudar quando aceitou um contrato publicitário para divulgar uma casa de apostas.

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O convite surgiu por indicação de um amigo, que também era influenciador. “No começo, eu nem sabia direito do que se tratava, então recusei. Depois, quando entendi que tinha relação com apostas, recusei novamente”, relembra Bruno.

Isso aconteceu no início de 2022. Embora as apostas esportivas tenham sido legalizadas no Brasil no fim de 2018, o mercado só ganhou força após a pandemia. “Ainda não existia toda a discussão e o entendimento que temos hoje sobre as apostas online. Mesmo assim, minha primeira reação foi dizer não.”

A persistência das propostas comerciais, porém, acabou fazendo o ator ceder. Na época, ele enfrentava um período de fragilidade financeira e emocional.

“Fazia cerca de três meses que não ganhava praticamente nada. Estava enfrentando uma depressão, minha carreira como ator não avançava, a carreira na internet também não. Eu não fechava publicidades, estava perdendo seguidores e sem motivação para produzir conteúdo. Minha cabeça não estava bem.”

As empresas passaram a oferecer valores cada vez maiores para convencer Bruno a aceitar a parceria.

“A proposta inicial era de R$ 20 mil para fazer apenas três stories por semana. Eu nunca tinha recebido um valor como aquele e, ainda assim, recusei”, explica.

Os valores continuaram aumentando. “Depois aumentaram para R$ 25 mil, e eu recusei de novo. Quando a proposta chegou a R$ 30 mil, acabei aceitando. Não foi apenas uma decisão financeira. Claro que o dinheiro fazia diferença, mas, para mim, também representava uma oportunidade de retomar a rotina.”

Bruno conta que, para quem trabalha produzindo conteúdo na internet, conseguir um patrocinador representa mais do que uma fonte de renda. Também significa voltar a produzir, manter a rotina e recuperar a esperança de continuar a carreira.

Diferentemente de outros influenciadores, o ator afirma que não queria enganar os seguidores. Segundo ele, uma prática comum nesse tipo de publicidade é utilizar contas fornecidas pelas próprias casas de apostas. Nelas, o influenciador não aposta com dinheiro real e costuma exibir apenas resultados positivos.

“Mesmo quando aceitei a proposta, eu pedi para eles esperarem, porque queria testar isso antes. Então, criei uma conta e fui apostando. Queria mostrar que estava ganhando de verdade.”

Bruno relembra que, no início, ganhava mais do que perdia. Os primeiros resultados fizeram com que acreditasse ter controle sobre a situação. A sensação, porém, durou pouco.

“Como estava dando certo, aceitei a proposta e comecei a fazer os stories jogando com o meu próprio dinheiro. Quando percebi, estava perdendo horas do meu dia apostando. A aposta tira o nosso dinheiro e o nosso tempo. Ao mesmo tempo em que eu perdia, eu também não conseguia parar. Era muito difícil me segurar.”

O psicólogo Rafael Brito, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, explica que o desenvolvimento de um vício não acontece por um único fator, mas pelo conjunto de diferentes aspectos psicológicos, sociais e comportamentais.

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“Não é possível definir com exatidão por que os jogos de azar causam dependência. O que acontece é uma associação de fatores que levam ao comportamento de aposta compulsiva, como a esperança de ganho financeiro repentino, que chamamos de pensamento mágico, e a imprevisibilidade das vitórias, que atua como um reforçador intermitente do comportamento”, explica.

Bruno afirma ter vivido exatamente esse processo. Ele acabou preso em um ciclo no qual continuava apostando para tentar recuperar as perdas anteriores. Apesar disso, conta que percebeu relativamente rápido que havia desenvolvido um vício e conseguiu evitar que a situação se tornasse ainda mais grave.

“Quem é viciado em apostas sabe, no fundo, que está viciado e que está perdendo mais do que ganhando. O difícil é aceitar isso. Principalmente aceitar que o dinheiro perdido não vai voltar. Quanto mais você tenta recuperar, mais acaba perdendo e se afundando”, desabafa o criador de conteúdo.

Rafael Brito explica que essa insistência em continuar jogando para recuperar o dinheiro perdido é uma das características que diferenciam a ludopatia de outros transtornos aditivos.

“A ludopatia foi reclassificada no DSM-5, saindo da categoria de ‘Transtorno do Controle de Impulsos’ para a de ‘Transtornos Relacionados a Substâncias e Transtornos Aditivos’, pelas suas similaridades com a dependência química, como o desenvolvimento de tolerância, sintomas de abstinência e fissura. No entanto, o comportamento de chasing, continuar jogando para tentar recuperar o dinheiro perdido, não tem equivalente direto nos transtornos de dependência química”, analisa o especialista.

Bruno diz que viveu exatamente esse processo. Começou tentando recuperar o dinheiro perdido e, quando percebeu, já passava horas apostando. Segundo ele, reconhecer o vício relativamente cedo impediu que a situação se agravasse ainda mais.

“Tem gente que demora mais para enxergar isso. Eu percebi depois de alguns meses, mas não conseguia aceitar, muito menos parar. O pensamento era: ‘Eu consigo. Vou apostar com responsabilidade, com controle. Em uma semana, vou recuperar tudo o que perdi e depois eu paro’.”

Ele prefere não revelar o valor total do prejuízo, mas admite que o saldo foi negativo.

“Sobre quanto eu perdi, prefiro não dizer. Eu conseguia guardar uma parte do que ganhava, mas outra parte usava para apostar e, obviamente, no longo prazo, acabei perdendo”, resume.

Segundo Rafael Brito, a publicidade das casas de apostas também agrava a situação de pessoas que já apresentam algum grau de vulnerabilidade emocional, funcionando como um gatilho constante.

“A publicidade funciona como estímulo que desperta o desejo de seus potenciais consumidores. A literatura científica ressalta que esses estímulos, por associação, aumentam a fissura dos adictos em jogos de azar. Outro efeito é a ‘normalização’ do jogo: ao estar presente de forma constante, a propaganda faz com que as bets passem a fazer parte da rotina, reduzindo a percepção de risco”, alerta.

Hoje, Bruno Helal diz se arrepender de ter emprestado sua imagem ao mercado de apostas e defende um controle mais rigoroso sobre o setor.

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“Se fosse hoje, com tudo o que sabemos e com tudo o que está acontecendo, seria mais fácil entender que as apostas podem se tornar um vício muito perigoso e que eu não deveria colocar dinheiro na plataforma, apostar e muito menos divulgar esse tipo de conteúdo.”

A avaliação de Bruno é compartilhada por Rafael Brito. Para o psicólogo, os alertas que acompanham as propagandas das casas de apostas não são suficientes para prevenir a dependência.

“Avisos como ‘aposte com responsabilidade’ me parecem mais uma obrigação técnica do que uma política efetiva. Deslocar a responsabilidade para os indivíduos e retratar os danos como restritos a populações ‘atípicas’ e minoritárias não é o que a saúde pública compreende como uma campanha de prevenção eficaz.”

Brito destaca ainda a relação de mão dupla entre o jogo compulsivo e outros transtornos emocionais.

“Existe uma relação bidirecional: sintomas psiquiátricos podem preceder e predispor à ludopatia, e a ludopatia pode preceder e predispor transtornos de humor e ansiedade, principalmente por meio de perdas financeiras, endividamento, conflitos familiares e sentimentos de vergonha ou culpa.”

Hoje, após superar o vício e enfrentar duas recaídas, Bruno afirma que não sente mais vontade de apostar. Em vez disso, diz sentir revolta ao ver a quantidade de propagandas de casas de apostas e preocupação com pessoas que possam passar pela mesma situação.

“O que eu sinto quando vejo publicidades de casas de apostas é raiva, nojo e, às vezes, até vergonha alheia pela cara de pau de quem divulga esse tipo de conteúdo. Mas acho que o principal sentimento é a raiva. Também me bate uma preocupação quando penso na quantidade de pessoas que estão vendo essas propagandas e sendo influenciadas por elas˜, diz

“Sei que isso pode entrar na mente de muita gente, principalmente de pessoas que estão vivendo algo parecido com o que eu vivi em 2022: sem vontade de viver, com tudo dando errado, em um quadro de depressão e sem ganhar dinheiro por meses. A pessoa pode acabar pensando que a aposta seria uma espécie de ‘salvação’ para a vida dela, que foi exatamente o que aconteceu comigo.”

A preocupação relatada por Bruno também é compartilhada por Rafael Brito. Para o psicólogo, o crescimento das apostas exige uma resposta coordenada do poder público.

“Já é possível perceber o impacto negativo da atuação das bets no Brasil. Sem mecanismos de proteção consistentes, como controle publicitário, limites de uso, campanhas de conscientização e financiamento de tratamento, estamos diante de um problema de saúde pública sério e ainda muito subnotificado, que precisa ser enfrentado com urgência”, conclui.

  • Publicado: 13/07/2026 15:57
  • Alterado: 13/07/2026 15:57
  • Autor: Daniela Ferreira
  • Fonte: ABC do ABC

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